O Mercado de Apostas Desportivas em Portugal: Receitas, Crescimento e Tendências

Dados e tendências do mercado de apostas desportivas em Portugal
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O Mercado de Apostas Desportivas em Portugal: Receitas, Crescimento e Tendências

Um mercado de mil milhões: o jogo online em Portugal

Há um número que define o estado atual do jogo online em Portugal: 63 milhões de euros por dia. É o valor médio que os portugueses apostaram diariamente em jogos online em 2025. Quando vi este número pela primeira vez, tive de refazer o cálculo. Sessenta e três milhões. Todos os dias. Inclui apostas desportivas, casino, poker — o ecossistema completo. É um número que dá escala a um setor que muitas pessoas ainda subestimam.

A receita bruta total do jogo online em Portugal atingiu 1.206 milhões de euros em 2025, um crescimento de 8,49% face a 2024. Parece sólido, mas há uma nuance importante: é o menor crescimento anual de sempre desde que o mercado foi regulado. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, confirma a tendência — o mercado está a entrar numa fase de maior maturidade, com uma desaceleração progressiva que se acentuou de forma marcada no último ano.

Este número global decompõe-se em dois segmentos: as apostas desportivas à cota, que geraram 447 milhões de euros de receita bruta (+3,23%), e os jogos de fortuna ou azar (casino online), que geraram 759 milhões (+11,85%). O casino cresce mais rapidamente do que as apostas desportivas — uma inversão face aos primeiros anos do mercado regulado, quando as apostas dominavam.

O volume total de apostas desportivas em 2025 foi de 2.034,9 milhões de euros, uma descida de 0,90% face a 2024. É a primeira vez que o volume de apostas desportivas diminui num ano completo. A receita bruta ainda cresceu (porque as margens dos operadores melhoraram), mas o dinheiro que os jogadores colocam em apostas já está a contrair. Para quem acompanha este mercado profissionalmente, é um sinal de que o crescimento fácil acabou.

Acompanho estes números há nove anos. Vi o mercado nascer, explodir e agora estabilizar. E o que mais me fascina não são os totais — são as histórias que os dados contam quando os desagregamos. Quem aposta, em que desportos, com que dinheiro, em que regiões. São esses padrões que vou desmontar nas próximas secções, com os dados mais recentes da SRIJ e da APAJO.

Evolução das receitas brutas de 2015 a 2025

Dez anos atrás, as apostas online em Portugal eram um mercado cinzento. Operadores internacionais aceitavam jogadores portugueses sem licença, sem regulação e sem proteção. O Decreto-Lei n.º 66/2015 mudou tudo: criou um quadro legal, estabeleceu o SRIJ como entidade reguladora e definiu as regras do jogo — literalmente.

Os primeiros anos foram de arranque lento. As licenças demoraram a ser emitidas, os operadores internacionais tiveram de adaptar-se ao regime fiscal português (significativamente mais pesado do que em jurisdições como Malta ou Gibraltar), e os jogadores tiveram de migrar dos sites ilegais para as plataformas licenciadas. Em 2024, o jogo online já gerava 1.175 milhões de euros em receita bruta e 335 milhões em IEJO.

O salto de 2024 para 2025 — de 1.175 para 1.206 milhões — confirma que o mercado continua a crescer, mas a um ritmo cada vez mais contido. Os anos de crescimento de dois dígitos ficaram para trás. A receita bruta das apostas desportivas subiu apenas 3,23%, a taxa mais baixa alguma vez registada para este segmento. O casino online, por outro lado, continua a expandir-se a ritmos mais expressivos, impulsionado pelas slots e pelo jogo ao vivo.

Olhando para os dados trimestrais, o primeiro trimestre de 2025 registou 284,7 milhões de euros de receita bruta (+9,1% face ao período homólogo), enquanto o terceiro trimestre atingiu 297,1 milhões (+11,6%). A sazonalidade é evidente: os trimestres com mais futebol europeu — especialmente os que coincidem com as fases finais da Champions League ou com o arranque das ligas — tendem a registar maior atividade.

Esta evolução importa por duas razões. Primeira: mostra que o modelo regulatório português funciona. Conseguiu trazer operadores para dentro da lei, gerar receita fiscal significativa e criar proteções para os jogadores. Segunda: sinaliza que o futuro do crescimento não está na expansão da base de jogadores (que está a desacelerar), mas na retenção e no valor por jogador.

Se olharmos para trás, o percurso é notável. Um mercado que partiu praticamente do zero em 2015 chegou aos mil milhões em menos de uma década. Mas a curva de crescimento está a achatar, e quem trabalha nesta indústria sabe que a próxima fase exige estratégias diferentes: mais foco na experiência do utilizador, maior diversificação de produto e — talvez o mais importante — combate efetivo ao mercado ilegal que continua a desviar volume e receita.

Volume de apostas e tendência de desaceleração

O volume total de apostas — o dinheiro que efetivamente entra nas plataformas antes de qualquer resultado — é um indicador mais cru do que a receita bruta. E o que este indicador diz em 2025 não é animador para os operadores: 2.034,9 milhões de euros, uma descida de 0,90%. Os portugueses apostaram menos dinheiro do que no ano anterior.

A receita bruta ter crescido apesar da queda no volume significa que os operadores retiveram uma percentagem maior das apostas — ou seja, as margens melhoraram. Isto pode dever-se a uma combinação de fatores: odds ligeiramente menos competitivas, maior peso de apostas múltiplas (que têm margens incorporadas mais elevadas) e um mix de modalidades diferente.

O próprio presidente da APAJO aponta que o crescimento das receitas do Estado poderia ser mais significativo com uma aposta decidida no combate ao mercado ilegal, que absorve 40% dos jogadores. Esta fuga de volume para operadores não licenciados é uma das explicações para a estagnação: parte do dinheiro que poderia estar no sistema regulado está a sair dele.

No terceiro trimestre de 2025, a receita bruta atingiu 297,1 milhões de euros, com um crescimento homólogo de 11,6% e em cadeia de 3,5%. O IEJO correspondente foi de 89,8 milhões (+8,8% face ao mesmo período de 2024). Estes trimestres mostram que o mercado não está em declínio — está a abrandar o ritmo de crescimento, o que é uma dinâmica diferente e típica de mercados que saem da fase de expansão para a fase de consolidação.

Há um paralelo que faço frequentemente com colegas do setor: o mercado português está a fazer, em câmara acelerada, o percurso que os mercados britânico e escandinavo fizeram ao longo de duas décadas. Crescimento explosivo inicial, maturação progressiva e, eventualmente, estabilização. A diferença é que Portugal está a fazer este percurso com um regime fiscal particularmente exigente, o que comprime as margens dos operadores e cria pressão adicional sobre a competitividade face ao mercado ilegal.

Para o apostador, a desaceleração do volume não muda a experiência direta. Os mercados continuam disponíveis, as odds continuam competitivas e as funcionalidades evoluem. Mas para o ecossistema como um todo, é um sinal de que as decisões regulatórias dos próximos anos — especialmente em relação ao combate ao jogo ilegal e à eventual revisão do regime fiscal — terão impacto direto na saúde do mercado.

IEJO: quanto o Estado arrecada com o jogo online

Quando alguém me pergunta quanto vale o jogo online para o Estado português, dou-lhe um número: 353 milhões de euros. Foi o valor total de IEJO arrecadado em 2025, um crescimento de 5,47% face a 2024. É dinheiro que entra diretamente nos cofres públicos, pago exclusivamente pelos operadores.

A estrutura do imposto é diferente conforme o segmento. Nas apostas desportivas, o IEJO incide sobre 8% do volume de apostas — não sobre a receita, mas sobre o total apostado. No casino online, a taxa é de 25% sobre a receita bruta (GGR). Esta diferença estrutural explica porque é que os operadores de apostas desportivas operam com margens mais apertadas do que os de casino: o imposto sobre o volume é independente de o operador ter lucro ou prejuízo num determinado período.

A Unidade Técnica de Apoio Orçamental do Parlamento (UTAO) assinalou que a ausência de dados disponíveis sobre os ganhos líquidos dos jogadores torna impossível avaliar o impacto orçamental completo. Por outras palavras: sabemos quanto o Estado recebe dos operadores, mas não sabemos quanto os jogadores ganham ou perdem em termos líquidos. É uma lacuna informativa que limita a capacidade de formular política fiscal informada para o setor.

O IEJO no terceiro trimestre de 2025 foi de 89,8 milhões de euros, o que sugere uma distribuição relativamente uniforme ao longo do ano, com alguma concentração nos trimestres de maior atividade desportiva. É receita previsível, estável e crescente — características que fazem do jogo online uma fonte fiscal cada vez mais relevante para o Estado.

Uma consequência direta deste modelo fiscal que vale a pena sublinhar: os jogadores em Portugal são totalmente isentos de impostos sobre os ganhos de apostas online legais. O IEJO é pago inteiramente pelos operadores. Se ganhas 5.000 euros numa aposta, recebes 5.000 euros. Não há IRS adicional, não há declaração obrigatória. Esta isenção é uma vantagem concreta do mercado regulado português face a outros países europeus onde os ganhos são tributados.

Perfil dos jogadores: idade, localização e nacionalidade

Quem é o apostador português típico? Os dados da SRIJ desenham um retrato claro: jovem, urbano e predominantemente masculino. Mais de 60% dos jogadores registados têm menos de 35 anos — 32,5% na faixa dos 18-24 e 29,8% na faixa dos 25-34. É um mercado dominado pela geração que nasceu com a internet e que trata as apostas como mais uma forma de entretenimento digital.

A distribuição geográfica concentra-se no litoral. Lisboa lidera com 21,7% dos registos, seguida de muito perto pelo Porto com 21,1%. Braga, Setúbal e Aveiro representam conjuntamente 24,2% — e juntos, os cinco distritos do litoral concentram quase 70% de toda a atividade. O interior do país tem uma presença residual no mercado de apostas online, o que reflete padrões mais amplos de distribuição populacional e de acesso digital.

Em 2025, o mercado tinha cerca de 1,23 milhões de apostadores ativos e 4,72 milhões de contas registadas. A diferença entre estes dois números é significativa: mais de três milhões de contas estão inativas. São pessoas que se registaram, provavelmente usaram um bónus de boas-vindas e depois abandonaram a plataforma. É um padrão comum na indústria e um dos motivos pelos quais os operadores investem tanto em retenção.

Um dado particularmente interessante é a presença de jogadores brasileiros. Cidadãos de nacionalidade brasileira representam 48,5% dos registos de jogadores estrangeiros no terceiro trimestre de 2025. Não é surpreendente, dado o peso da comunidade brasileira em Portugal, mas é um fator demográfico com implicações reais para os operadores — tanto em termos de marketing como de oferta de competições (o interesse em ligas brasileiras, por exemplo).

O número de contas com prática de jogo no segundo trimestre de 2025 situou-se em 4.866,6 mil — um indicador de quantas contas estavam efetivamente ativas nesse período. Cruzando com o número total de contas registadas, percebemos que a taxa de atividade ronda os 25-30%. A maioria das contas registadas em Portugal está inativa, o que é consistente com padrões observados noutros mercados europeus.

A criação de novas contas caiu 21,80% em 2025, com 910 mil novos registos. O mercado está a aproximar-se de um patamar de saturação na penetração — pelo menos entre o público que está disposto a apostar dentro do sistema regulado. O crescimento futuro dependerá mais de converter apostadores do mercado ilegal do que de atrair pessoas que nunca apostaram.

Outro dado que raramente é analisado: 77,8% dos registos dizem respeito a jogadores com menos de 45 anos. Isto significa que o segmento acima dos 45 está sub-representado — e constitui, potencialmente, uma reserva de crescimento para operadores que consigam adaptar a oferta e a comunicação a um público mais maduro. Por enquanto, contudo, o mercado é e continuará a ser dominado por apostadores jovens, digitais e urbanos.

Portugal no mapa europeu do iGaming

Portugal é um mercado pequeno no contexto europeu, mas é um mercado bem regulado — e isso conta. O mercado europeu de gambling online atingiu 47,21 mil milhões de dólares em 2025, com uma previsão de crescimento até 68,19 mil milhões em 2031. A Europa detém 56,90% da receita global de gambling online, o que faz do continente o centro mundial desta indústria.

Em termos de penetração do online no total de gambling, a Europa atingiu os 39% em 2024 e prevê-se que chegue a 40% em 2025. Portugal acompanha esta tendência, embora com a particularidade de ter um regime fiscal sobre apostas desportivas baseado no volume (8%) em vez de na receita bruta, o que o torna um dos mercados mais exigentes para operadores neste segmento.

A receita total do mercado europeu de gambling — incluindo offline — foi de 123,3 mil milhões de euros em 2024, com previsão de 127,7 mil milhões em 2025. O jogo online continua a ganhar quota ao jogo presencial, impulsionado pela conveniência do acesso mobile e pela diversificação da oferta. Os dispositivos móveis geraram 58% da receita de gambling online na Europa em 2024, contra 56% em 2023 — uma migração gradual mas consistente do desktop para o telemóvel.

O sports betting é o segmento dominante a nível global, com 52,05% de quota de mercado em 2025. Em Portugal, contudo, o casino online já ultrapassou as apostas desportivas em receita bruta — uma divergência que merece acompanhamento nos próximos anos. Se a tendência se mantiver, Portugal poderá ser um dos mercados europeus onde o casino online domina estruturalmente o mix de jogo, apesar da tradição futebolística do país.

Onde Portugal se destaca positivamente é na robustez regulatória. O modelo SRIJ, com segregação de fundos, verificação de identidade obrigatória e ferramentas de jogo responsável impostas por lei, é reconhecido como um dos mais completos da Europa. É um modelo que outros países têm estudado e, em alguns aspetos, replicado.

A comparação com o contexto europeu revela também onde Portugal pode melhorar. O combate ao mercado ilegal, que absorve 40% dos jogadores segundo dados da APAJO, é uma área onde o país está claramente aquém de jurisdições como a Suécia ou a Dinamarca, que implementaram bloqueios de IP e de meios de pagamento mais eficazes. O regime fiscal, baseado no volume em vez da receita para apostas desportivas, é outro ponto de debate permanente na indústria — e uma das razões frequentemente apontadas para a menor competitividade das odds nos operadores portugueses face aos congéneres europeus.

Para o apostador que lê esta análise, o contexto europeu serve sobretudo como referência. Portugal está integrado numa tendência continental de digitalização do jogo, de migração para o mobile e de profissionalização regulatória. O mercado vai continuar a evoluir, as ferramentas vão continuar a melhorar e os dados vão continuar a crescer. O que não muda é o princípio fundamental: apostar informado é apostar melhor.

Perguntas frequentes sobre o mercado de apostas

Qual é a dimensão do mercado português de jogo online?
O mercado português de jogo online gerou uma receita bruta total de 1.206 milhões de euros em 2025, repartida entre apostas desportivas (447 milhões) e jogos de fortuna ou azar (759 milhões). O volume diário médio de apostas em jogos online foi de 63 milhões de euros. O IEJO arrecadado pelo Estado atingiu 353 milhões de euros.
O mercado de apostas desportivas em Portugal ainda está a crescer?
O mercado continua a crescer em receita bruta, mas a um ritmo cada vez mais lento. Em 2025, a receita bruta das apostas desportivas subiu 3,23% — o menor crescimento anual registado. O volume total de apostas desportivas diminuiu pela primeira vez, com uma descida de 0,90%. Estes indicadores apontam para um mercado que está a entrar em fase de maturidade e consolidação.
Qual a percentagem de jogadores jovens no mercado português?
Mais de 60% dos jogadores registados em Portugal têm menos de 35 anos: 32,5% na faixa etária dos 18-24 anos e 29,8% na faixa dos 25-34. A grande maioria dos registos (77,8%) corresponde a jogadores com menos de 45 anos. É um mercado demograficamente jovem, concentrado nas zonas urbanas do litoral, com Lisboa e Porto a representarem mais de 42% dos registos.